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Conhecendo sua Professora: Danny Barradas

Ela não é muito afeita aos padrões. Amante da originalidade, é portadora de um poder de argumentação admirável que é legitimado pelo sem número de obras-primas das quais se faz exímia conhecedora, debruçando-se sobre as mais inspiradoras biografias, recorrentes aos maiores pensadores da História, e fazendo de áreas como Filosofia, Literatura, Línguas e Sociologia seus redutos de paz e conhecimento. Já quis ser juíza, médica, neurocientista, astrônoma. Mas, encontrou sua vocação real nas salas de aula. Foi estudante CEV e, hoje, abrilhanta nosso quadro de professores com sua virtuosa presença. Essa é Danny Barradas, uma das professoras mais queridas e competentes da capital piauiense.

Em 2011, quando tinha o desejo de ser neurocientista e desejava ingressar em instituições como USP e UNB (tendo em vista a área de pesquisa que sempre foi mais desenvolvida nessas localidades se comparada àquela que marca presença no Nordeste), Danny deparou-se com um momento de essência singela, mas, de grande importância na sua trajetória: “Quando assinei a Folha de São Paulo li um texto do Clóvis Rossi no qual ele envolvia o Japão, o átomo e a e a obra ‘Fausto’ do Goethe. Eu percebi (naquele momento) que eu queria escrever daquele jeito um dia”, diz. 

Em 2012, Danny passou para Astronomia na UFRJ. Apesar de gostar muito dessa área, seus pais não permitiram que ela pudesse dar vida ao curso. A amiga (Fabíola, também professora) e o professor de um cursinho a ajudaram muito na descoberta da sua vocação. “Eu era uma pessoa muito tímida. Não conseguia apresentar os trabalhos em sala se não fosse com auxílio de papel. Então, eles dois foram muito importantes nesse início de caminhada por conta dessa minha timidez”, assegura. Ela começou a treinar a fase oral através das aulas do mencionado cursinho, pois tinha o sonho de ser a primeira juíza transexual do Brasil (e expressar-se bem nesse âmbito é parte importante dessa caminhada). Fabíola, por sua vez, foi responsável por lhe apresentar às escolas – após constatar a didática diferenciada e todo conhecimento da amiga num encontro que tiveram numa livraria. 

Em 2013, um dia após o natal daquele ano, Danny publicou um texto no Facebook abordando um assunto que muitos ainda tratam como algo “polêmico”, no pior sentido da expressão: a transexualidade, sua transexualidade. Nesse sentido, as aspas há pouco usadas se fazem mais do que necessárias, pois, como se sabe, o que vale mesmo é a essência de cada indivíduo, independentemente da cor, credo, identidade de gênero ou quaisquer outros parâmetros que venham a ser usados como critérios de avaliação: “Toda vez que eu abordo a   obra ‘Metamorfose’ (de Franz Kafka) a gente observa a forma que a família trata o Kafka depois que ele se transforma num inseto monstruoso. Inseto monstruoso em alemão é ‘ungeheueren ungeziefer’ e significa “um animal que não serve para sacrifício e que não é familiar”. Ou seja, tudo aquilo que não é familiar causa estranheza, causa repulsa. Isso a gente pode observar em inúmeros trechos da obra. Assim, quando eu assumi minha ‘monstruosidade’, quando assumi aquilo que o Kafka colocou como ungeheueren, “algo não familiar”, é claro que eles tinham o direito de estranharem. Eu não poderia exigir nada diferente, porque é natural. O que a gente olha é muito forte para criarmos a concepção que temos acerca dos outros, por isso que as aparências nos enganam. Nisso minha família foi primordial, pois me apoiou, meus irmãos, pais, tios, primos, e sem esse apoio você não é nada. As pessoas acreditam que a meritocracia está vinculada apenas a você, que tudo que você conquistou é fruto seu, mas, é mentira. Isaac Newton já havia proferido que se ele enxergou longe foi porque apoiara-se em ombros de gigantes. Minha família tem um papel super relevante no meu bem-estar de hoje, o qual é refletido na forma como dou aula, forma essa da qual, ao que parece, os alunos gostam muito”, relata.

Danny ama o que faz, apesar da sociedade brasileira ainda não reconhecer o papel imprescindível dessa profissão no meio social: “A maior dificuldade na vida de um professor se refere ao fato de que os professores não tem o mesmo respeito que é destinado a outras profissões. Só que eu mesma nunca sofri qualquer tipo de desrespeito (por exercer a profissão)”. Com efeito, diante de tanto talento e dedicação fica impossível não se colher bons frutos: “As recompensas são inúmeras. É incrível quando você recebe mensagens de alunos dizendo que vão preservar a vida depois de terem ouvido uma frase que você citou do Shakespeare, do Ovídio, do Platão, do Cervantes. É impressionante você ver que existem alunos que dizem que só dormem depois que leem seu último texto do dia, perceber o carinho deles quando a gente chega. E o principal é a gente se sentir útil, pois, quando eles passam no vestibular que eles tanto almejam, eles mandam mensagens agradecendo os 960, 980, 1000 pontos obtidos (na Redação). Eles reconhecem que o professor teve de fato esse papel importante por ter citado, numa Redação, Franz Kafka, Aristóteles, Voltaire, Norberto Bobbio...é bem gratificante perceber esse retorno. Você observa que, mesmo de forma minúscula, conseguiu fazer parte da história de um aluno”, assegura. Para ela, o saber é a matéria-prima mais importante para o desenvolvimento de uma pessoa, e, consequentemente, do próprio mundo: “Ser professora é sentir essa responsabilidade de que a única forma da qual você pode usufruir para melhorar o mundo é através do conhecimento. Francis Bacon já dizia: “o conhecimento é poder”. Então, permitir que esses alunos tenham uma educação de alto nível e, da minha parte, permitir que eles tenham mais acesso aos clássicos, algo que vem sendo deixado de lado há tempos (são dois pilares da minha missão)”, afirma.

A rotina corrida, nem de longe, faz com que Danny cesse a busca por novos projetos. Pelo contrário. Ela quer desenvolver sempre mais seu lado humano e intelectual, colocando toda sua existência à serviço da partilha do conhecimento: “Pretendo cursar letras clássicas em Coimbra (Portugal). Quero ler Homero, Virgílio, Cícero, Sêneca... todos eles na língua original. Quero fazer intercâmbio em vários países.... Por isso deixei de lado o carro, só ando de bicicleta, não compro roupas de marca, não uso perfume bom, não vou a restaurantes, diminuí os gastos com livros, porque pretendo aperfeiçoar o meu alemão (idioma favorito) na Suíça, na Alemanha, ou na Áustria. Ainda tenho muita coisa para fazer e, como já decidi que não pretendo formar família, e não quero perder tempo com relacionamentos, decidi dedicar minha vida aos estudos e a escrever livros como alguns que eu já estou escrevendo”, acrescenta.

Nas horas de folga, Danny se mostra bastante eclética: “Basicamente, gosto de estudar. Por exemplo, agora, estou lendo Diálogo Górgias, de Platão, que fala da retórica. Gosto de andar de bicicleta, gosto de correr, de brincar com meus sobrinhos, gosto de assistir filmes de terror com meus primos, ainda que já tenha um tempo que eu não faça isso. Gosto de ir para a livraria e ficar lá com os funcionários, conversando, então eu consegui viver bem com muito pouco. Duas vezes por mês, nos fins de semana, quero ir pra Luís Correia ficar perto da praia, tranquilo, tendo tempo para pensar e para concretizar as ideias que já há algum tempo rodeiam minha mente (com relação à escrita dos livros)”, finaliza.

Gostou? Pois, nos diga que outras histórias você quer conhecer acerca dos nossos professores! Sua sugestão é muito importante para nós, e, em breve, pode ser concretizada aqui neste espaço!