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Aprendizagem: Família e Escola

Os processos de aprendizagem da leitura e da escrita é, provavelmente, o assunto que causa o maior nível de estresse entre pais e filhos, e entre escola e pais.

Os filhos geralmente não fazem o que os seus pais dizem, porque apenas repetem os comportamentos dos pais. Quase tão simples quanto isso.

Em minha experiência de 3 décadas, entre escolas e consultórios, aprendi e aprendo diariamente. As queixas são essas invariavelmente.

Em geral a principal queixa refere-se à leitura, pois frequentemente os pais se queixam que os filhos não leem e não demonstram interesse por livros. A pergunta que faço é: os pais têm o hábito de ler? Há livros espalhados pela casa? Jornais? Se houver, os pais podem despreocupar-se, porque serão imitados pelas crianças mais cedo ou mais tarde.

A queixa seguinte, a escrita. Preocupação excessiva, muitos receios. Lá vem a pergunta: as crianças presenciam os pais escrevendo, falando entre si sobre o assunto?

A escrita não é natural, é cultural. Quando as crianças veem os adultos escrevendo repetem o comportamento por imitação. Mas, para que essa conduta seja efetivada, existem pré-requisitos, tais como as habilidades de comunicação oral, da fala, pedidos, nomeações e funções psicomotoras, como as habilidades de coordenação motora.

As conversas em casa, os diálogos entre pais e filhos sendo valorizados pelos pais, geram um interesse enorme por parte das crianças. A partir dessa construção da fala em casa, sobre o cotidiano, as rotinas, o que fazem e, sobretudo, o que pensam, dá-se o interesse natural por estender esta delícia que é o “trocar ideias” para uma busca de outras ideias.

Daí então surge a leitura, que precede a escrita. As crianças vão encontrar letras, números e símbolos em todos os lugares: na geladeira, na rua, nas placas, nos carros, nos shoppings, lojas. Logo, a construção do interesse pelos livros, inicialmente começa pelas imensas imagens e poucas palavras escritas.

No início surge a “tentativa de escrita”, pequenas garatujas no meio dos desenhos e das grandes garatujas. Em seguida, o início das letras do próprio nome, ainda com inversões e grafemas (imitações de letras). Em paralelo, a criança vai convivendo com letras em todos os momentos: placas, anúncios, produtos, propagandas, avisos, símbolos. As crianças podem escrever outras palavras literalmente só com grafemas (pequenos desenhos semelhantes a letras, mas sem significado aparente). Chamamos esse período de PRÉ-SILÁBICO.

No período seguinte, o SILÁBICO, as crianças já dominam parte do alfabeto e escrevem palavras segundo uma premissa lógica: cada sílaba corresponde a uma letra. Podem escrever assim: OEA para BONECA, ou CAL para CAVALO. No decorrer desse período existe o chamado REALISMO NOMINAL.

Façam a experiência: mostrem à criança uma folha com as palavras BOI e FORMIGUINHA, em seguida perguntem onde está escrito a palavra boi. Se ela estiver no Realismo Nominal, apontará para a palavra “formiguinha”. Se lhe perguntar o motivo, provavelmente responderá: ”porque boi é grande, tem mais letras”.

Posteriormente, tem-se o período ALFABÉTICO durante o qual a criança já sabe as letras do alfabeto, mas faz a correspondência entre som e letra, exatamente da maneira como escuta. Poderá escrever CRIASA para CRIANÇA, FAMILA para FAMÍLIA. Ainda não valorizam pontuação nem acentuação.

Por fim, a criança chefa ao período ORTOGRÁFICO, onde os detalhes da escrita já estão sendo dominados. A acentuação e pontuação passam a ter relevância e, sucessivamente, diminuem os “erros alfabéticos”, escrevem HELICÓPTERO em vez de ELICOTERO (período alfabético).

Dominar este mundo da leitura e da escrita requer mais pré-requisitos.

A FALA é fundamental. Até aos 5 anos e 6 meses, as crianças devem saber  pronunciar todos os sons. O mais elaborado é o “R” (de CARO, BARATO). Pela minha experiência, crianças com atraso na linguagem sofrem atraso no processo de aprendizagem da leitura e da escrita.

A ALIMENTAÇÃO é outro fator importante, pois as crianças que não mastigam os alimentos permanecem na mamadeira depois dos 2 anos e 6 meses, não roem maçãs, só comem fruta cortadinha, ficam imaturas nas praxias dos movimentos da língua e da boca. Nas avaliações que faço, uma das observações é olhar a boca e avaliar a fala. Se tiver 5 anos e os lábios estiverem rosadinhos, brilhantes , a língua molinha e apresentar muitas trocas de sons na fala, já sei que antes da leitura e escrita, a criança precisará passar a alimentar-se mastigando, roendo, melhorando assim a fala e demais competências.

COORDENAÇÃO MOTORA FINA ou praxias finas: abrir e fechar caixas, enroscar e desenroscar tampas, alinhavos, rasgar e amassar papel, fazer encaixes, quebra-cabeças, tocar instrumentos, e muito mais.

COORDENAÇÃO MOTORA AMPLA ou praxias globais: precede a coordenação motora fina. O desenvolvimento psicomotor é a base de um corpo organizado. Para isso, é fundamental correr, pular, subir e descer, empurrar, jogar bola, equilibrar, explorar.

Finalmente, a construção da leitura e escrita depende de todos, sobretudo da família e em seguida da escola. Este belíssimo desenvolvimento é a base da nossa civilização. Família e escola deverão andar de mãos dadas nesse caminho.