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A inclusão de crianças com TEA na escola

Em 1987 na nossa primeira escola em Natal, Rio Grande do Norte, iniciámos um trabalho de educação inclusiva com crianças típicas e atípicas. Na época era um desafio imenso, havia poucos estudos sobre o assunto, mas estávamos bem acompanhados: tivemos apoio dos nossos professores na universidade e de absolutamente todos os pais dos nossos alunos. A escola era pequena, 200 alunos, e partindo do princípio de termos uma variedade enorme de nacionalidades dentro da escola, que era uma verdadeira Torre de Babel, conseguíamos ter informações e acesso a estudos, discussões e apoio de “quase” todas as partes.

As demais escolas exigiam que nos definíssemos: éramos ou não uma escola de educação especial? Queriam nos definir nesse formato mas recusámos esse rótulo. Éramos  democráticos, civilizados e humanos. E, sobretudo, muito estudiosos. Era o que nos movia naquela direção.

Lembro bem de termos recebido três crianças autistas, logo no início, um desafio enorme. Houve pais médicos, psiquiatras e neurologistas, que nos ajudaram a encontrar estudos de modo a desenvolvermos estratégias acadêmicas para fazermos um bom trabalho pedagógico.

Hoje o percentual de crianças autistas aumentou de forma avassaladora, de acordo com a OMS Organização Mundial da Saúde. No Brasil estima-se dois milhões de pessoas com TEA.

O autismo é uma condição geral para um grupo de desordens complexas do desenvolvimento. Estas desordens podem acontecer antes, durante ou após o nascimento e é caracterizado pela dificuldade na comunicação, interação social e comportamentos repetitivos. Quando falamos em Espectro, referimos a grande diversidade de sintomas dentro do autismo.

Todas as pessoas com TEA- Transtorno do Espectro Autista, partilham essas dificuldades porém com intensidades diferentes. Assim, essas diferenças podem existir desde o nascimento e serem óbvias ou podem ser mais sutis, levando a um diagnóstico mais tardio.

O TEA pode ser associado com deficiência intelectual, dificuldades de coordenação motora e de atenção e, por vezes, problemas de saúde física, tais como sono e distúrbios gastrointestinais. Existem quadros com outras condições como défice de atenção e hiperatividade, dislexia ou dispraxia.

No decorrer do seu desenvolvimento, geralmente a criança apresenta dificuldades de aprendizagem específicas ou gerais, tanto na vida acadêmica quanto nas atividades de vida diária, como vestir, tomar banho.  Nas terapias temos sempre programas de treino para estas atividades justamente por serem difíceis para a pessoa com autismo.

Pode ser difícil manter contato visual, suportar determinados sons, por exemplo. Quase todas as pessoas com autismo têm alterações na sensibilidade sensorial. Alguns buscam sensações: excesso de movimento, e outros evitam sensações. Chamamos de seekers ou avoiders. Estas alterações podem ocorrer em um ou em mais dos cinco sentidos – visão, audição, olfato, tato e paladar – que podem ser mais ou menos intensificados. A consciência corporal geralmente está alterada. 

O autismo é uma condição permanente. Hoje sabemos que quanto mais cedo for identificado, mais cedo iniciar as terapias, melhor será o desenvolvimento da criança. Temos provas disso na nossa clínica, com as nossas crianças.

Há 20 anos quando a família recebia um diagnóstico de autismo, era muito difícil encontrar o tratamento adequado: sabíamos pouco, poucos terapeutas tinham estudos suficientes na área. Hoje estamos numa nova realidade: existem grupos de pesquisa e de apoio no mundo inteiro e uma divulgação ininterrupta de trabalhos sobre o autismo.

Na clínica, quando recebemos uma criança com este diagnóstico, temos todos os instrumentos de avaliação e de intervenção. Temos acesso contínuo aos resultados de trabalhos realizados no mundo todo. Pouco a pouco sinto estar havendo uma espécie de “desdramatização” da condição autista.

Atualmente no Brasil existem leis que regulam a obrigatoriedade dos estabelecimentos de ensino receberem todas as crianças, sem exceções. A questão da inclusão de crianças autistas deixou de ser “estranho” e passou a ser uma questão de desenvolvimento de competências dos profissionais da educação, e especialmente, uma questão de sustentabilidade.

Hoje tenho a grata satisfação de reconhecer o grande avanço ocorrido no processo de inclusão de crianças com TEA nas escolas e de ser testemunha do esforço empreendido no sentido de compreender, desenvolver e realizar as condições técnicas e pedagógicas para criar ambientes cada vez mais favoráveis para receber cada aluno respeitando as suas particularidades.